A mortes silenciosas em casa

O que o Brasil precisa fazer para evitar repetir nas favelas a tragédia dos países ricos nos asilos O líder comunitário Thiago Firmino, de 39 anos, posa para uma foto em traje de proteção ao desinfetar a favela de Santa Marta, no Rio de Janeiro
Mauro Pimentel/AFP
No dia 14 de abril, a cidade de Nova York incluiu, entre as vítimas da Covid-19, 3.778 novos casos de mortos em casa ou asilos para idosos, que não haviam sido testados para o novo coronavírus. Num único dia, o total saltou mais de 50%, de 6.589 para 10.367. No final da semana passada, as mortes domésticas em Nova York representavam 25% de um total superior a 20 mil.
No Reino Unido, uma análise do jornal Financial Times (FT) estimou que, basicamente em virtude da exclusão das mortes domésticas, o total real de vítimas do vírus está perto do dobro do número oficial. Só na Inglaterra, um levantamento recente estimou os mortos nas casas de repouso em pouco mais de um quarto de quase 25 mil.
Ao incluir nesse total as mortes suspeitas que ocorrem em casa ou nos asilos, sem a necessidade de confirmação oficial, outros países europeus, como Alemanha, Bélgica, Suécia ou França, têm conseguido apresentar uma contabilidade mais próxima do impacto real da Covid-19, revela outra análise, da revista The Economist.
Tanto FT quanto Economist usam, para contar as vítimas da pandemia, não os boletins oficiais divulgados diariamente pelas autoridades, mas o conceito epidemiológico de “excesso de mortalidade por todas as causas”, também empregado nos levantamentos que publiquei para São Paulo e para as cinco cidades mais atingidas no Brasil nas últimas semanas. Trata-se, grosso modo, da diferença entre a mortalidade registrada neste ano e a média histórica.
Tal diferença leva em conta não apenas a subnotificação nos números da Covid-19, mas também as mortes pelo vírus que não foram objeto de testes, como as domésticas, ou as que não ocorreriam não fosse a pandemia e o estresse decorrente no sistema de saúde.
Um exemplo dessas últimas: na região italiana da Lombardia, as mortes por ataque cardíaco ocorridas fora do hospital cresceram 58% nas semanas críticas de fevereiro e março, revela um estudo publicado no New England Journal of Medicine. É até possível que não tenham sido resultado direto da ação do vírus – embora ele também ataque o coração –, mas certamente foram consequência da pandemia.
Na Alemanha, diz a Economist, o número oficial de mortos pela Covid-19 correspondeu, entre meados de março e o início de abril, a 97% do excesso de mortalidade. Na França, a 93% (num período mais extenso). Na Suécia, a 91%. Na Bélgica, a 87%. No Reino Unido e na Holanda, onde mortes domésticas sob suspeita não entram na conta, a, respectivamente, apenas 54% e 51%.
O principal núcleo de mortalidade nos países ricos têm sido as casas de repouso e tratamento para idosos. Pelos números oficiais, nelas ocorreram 36% das mortes alemãs, 37% das francesas, 39% das suecas e 53% das belgas. No Reino Unido, só 16% das mortes oficiais foram domésticas. Pelas contas do FT, porém, elas estão em torno de 50% e respondem pelo grosso da subnotificação.
No Brasil, um levantamento feito com base no total de atestados de óbito divulgados no Portal da Transparência do Registro Civil para as cinco cidades mais atingidas pela pandemia – São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Recife e Fortaleza – demonstrou que os números oficiais correspondem a apenas 37% do excesso de mortalidade.
Os dados do Portal da Transparência revelam que, aqui, boa parte das mortes não computadas nas estatísticas também são domésticas. O quadro abaixo compara os totais nas cinco cidades entre 16 de março, dia da primeira morte brasileira, e 1º de maio. Ressalva importante: como por lei há até 14 dias de prazo entre a morte e o registro na base de dados dos cartórios – sem contar atrasos contumazes –, os números estão certamente defasados em relação aos verdadeiros.
Crescimento das mortes em casa nas cinco cidades mais atingidas pela Covid-19
Editoria de Arte/G1
Ainda assim, os dados são suficientes para afirmar que as mortes cresceram mais em casa que nos hospitais no Brasil – e que a maior parte delas não vem sendo registrada como resultado da Covid-19, a exemplo do que ocorreu em Nova York e no Reino Unido. Verdade que, aqui, elas têm correspondido a só um quinto do total (de 12% em São Paulo a 23% em Manaus) – ante 66% em Nova York (segundo o número divulgado semana passada pelo governador Andrew Cuomo).
Mas isso não significa que não preocupem. Ao contrário, a alta nas mortes domésticas já traduz, na visão dos epidemiologistas, o impacto mais doloroso da pandemia no país. Se nos países ricos o risco está nos asilos de idosos, aqui está nos bairros pobres, sobretudo nas favelas, que reúnem uma população estimada em 13 milhões.
A densidade habitacional e a dificuldade de acesso a água e esgoto tornam inviáveis o cumprimento de normas rígidas de distanciamento social, higiene ou quarentenas. Não é um acaso que, nas cidades onde a pandemia mais avançou, as vítimas da Covid-19 já se concentrem nos bairros pobres. Em São Paulo, uma análise da prefeitura revelou que os 20 distritos mais atingidos pelo vírus concentram favelas, cortiços e conjuntos habitacionais de alta densidade. O risco de morrer pela doença nos bairros em pior condição social é multiplicado por dez.
No Rio de Janeiro, um levantamento do site Voz da Comunidade revela que 92 dos 1.126 mortos registrados até ontem na cidade pela doença viviam em favelas (ou 8,2%). Tal patamar mostra que ainda há tempo de agir para evitar o pior. “As próximas duas semanas serão cruciais”, afirma o engenheiro Pércio de Souza, da ONG Instituto Estáter, ligada à educação infantil. Com auxílio de um grupo de médicos e especialistas, ele desenvolve um plano para evitar que as comunidades pobres brasileiras se transformem, no Brasil, naquilo que os asilos e casas de repouso representam nas estatísticas dos países ricos.
Entre as características mais preocupantes da Covid-19 – além do contágio por quem não apresenta sintomas – está o caráter sorrateiro. O vírus induz certos pacientes a um patamar baixo de oxigênio no sangue sem que eles percebam, sem que sequer sintam desconforto para respirar – característica apelidada “hipóxia silenciosa” (leia mais aqui). Quando chegam ao hospital, tais pacientes já precisam ser entubados ou mesmo ir para a UTI. Nem sempre dá para salvá-los.
A demora no atendimento acarreta um quadro grave e aumenta a chance de morrer. “Se você abrevia o período entre o início do agravamento e o acesso à saúde, a chance de sobreviver é bem maior”, diz o infectologista Ésper Kallas, da Faculdade de Medicina da USP. A situação se agrava quão mais difícil for o acesso ao tratamento. “Se é alguém que está numa comunidade onde acesso a hospital é ruim, o tempo de deslocamento até ser visto por um médico é mais longo. Quando entra no hospital, já está com complicações mais graves.”
As mortes domésticas, diz Kallas, podem ocorrer por três motivos: ou porque o infectado não percebeu o risco que corria, ou porque o acesso ao tratamento é difícil (caso de ribeirinhos na Amazônia), ou então porque tem medo (caso dos nova-iorquinos que resistem a entrar num hospital por temer o tamanho da conta na saída). Levar ao médico rápido quem corre maior risco é o principal desafio. “Tudo acaba convergindo para acesso ao sistema de saúde.”
Kallas defende que, nas favelas e bairros pobres, seja disseminado, por meio das lideranças comunitárias ou por ação das autoridades, o uso do principal equipamento capaz de verificar o nível de oxigenação do sangue: o oxímetro de pulso. “Deveria ser comum como os termômetros.” Um programa comunitário deveria medir regularmente o nível de oxigênio de quem apresenta os sintomas da Covid-19 e dos grupos de maior risco, como idosos, hipertensos ou diabéticos. “Oxigênio baixou de 92? Corre pro hospital!”
Uma alternativa para quem não dispõe do aparelho é contar quantas vezes respira. “Se passa de 24 por minuto, se está ofegante, se a ponta do dedo ou do lábio estão roxas, então é hora de buscar atendimento.” Pacientes mais abastados podem até ser acompanhados pelo médico por celular mesmo. Nas comunidades, fica mais difícil. Será preciso criar uma cultura para o uso sistemático do oxímetro, assim como das máscaras. Qualquer programa do tipo precisará necessariamente contar com a mobilização já existente dentro das próprias comunidades, algo que já vem acontecendo.
A agilidade no monitoramento tem outro efeito benéfico: contribui para reduzir a demanda por respiradores e UTIs, já que os pacientes chegam ao hospital mais cedo, em condição de se recuperar apenas com acesso a balões de oxigênio. Na média, também ficam menos tempo internados. A ocupação menor amplia os recursos. “É uma forma de aumentar a capacidade das UTIs e respiradores sem precisar comprar ou fabricar mais UTIs e respiradores”, afirma Souza.
Reduzir a distância ao atendimento não significa que todos devam procurar o hospital indiscriminadamente. Casos moderados devem continuar a ser acompanhados à distância. O monitoramento, contudo, é essencial para evitar que os casos graves cheguem ao hospital tarde demais ou que os infectados morram de Covid-19 em casa – sem nem sequer entrar nas estatísticas da doença.


Fonte/Referência: G1

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