Afinal, a pandemia se parece tanto assim com uma guerra?


Mulher de máscara passa em frente a muro com marcas das batalhas em Berlim há 75 anos: na Alemanha, medidas contra coronavírus foram comparadas a guerra
Fabrizio Bensch/Reuters – 29.4.2020
Ser obrigado a ficar em casa por tempo indeterminado, não ter mais o direito de ir e vir ou mesmo tentar viajar para se proteger em um lugar mais seguro, temer um inimigo que está a espreita e viver com medo da morte.


O cenário acima define como a sociedade na Europa vivia durante a <a href="http://noticias.r7.com/internacional/fotos/ha-75-anos-berlim-se-rendia-e-a-2-guerra-chegava-ao-fim-na-europa-07052020" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><strong>Segunda Guerra Mundial</strong></a>, conflito que se encerrava no continente há exatos 75 anos, quando em 8 de maio de 1945 os exércitos aliados tomaram Berlim e decretaram a derrota final do regime nazista na Alemanha.


A data será lembrada de forma mais virtual do que com grandes comemorações na Alemanha, como estava previsto antes de a pandemia eclodir e a covid-19 matar centenas de milhares no mundo todo. Mas se o coronavírus impede as celebrações, ao mesmo tempo tem trazido a Segunda Guerra de forma sistemática à memória dos europeus. Líderes como, a própria alemã <a href="https://noticias.r7.com/internacional/merkel-este-e-o-maior-desafio-desde-a-2-guerra-mundial-na-alemanha-18032020" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><strong>Angela Merkel</strong></a>, evocaram os esforços do conflito mais de uma vez para falar do <a href="https://noticias.r7.com/internacional/coronavirus-presidente-da-italia-pede-a-mesma-uniao-do-pos-guerra-24032020" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><strong>enfrentamento à pandemia</strong></a>.


Mas se boa parte da população mundial se identifica com a descrição do início deste texto, este fenômeno tem muito mais a ver com o discurso acerca da pandemia do que, propriamente, com semelhanças sociais ou políticas com o período das grandes guerras mundiais.


A historiadora Caroline Silveira Bauer, professora de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisadora do Laboratório de Usos Políticos do Passado, reforça e alerta: não se pode comparar o momento de agora com o vivido no século passado durante alguma das guerras. 


Para ela, a maior semelhança entre os dois momentos históricos é se tratar de “situações absolutamente distintas” do que se pode chamar normalidade.


“A única coisa em que os esforços se aproximam é no enfrentamento a uma situação incomum, atípica do ponto de vista da política — ainda que a guerra possa ser vista como uma continuidade da política, e as consequências da pandemia explicitem também os limites das políticas públicas.”


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<div class="content">'A única coisa em que os esforços se aproximam é no enfrentamento a uma situação incomum, atípica do ponto de vista da política.'</div>
<span class="author">Caroline Bauer, historiadora</span>
A historiadora chama a atenção para o uso de termos como "guerra", "hospital de campanha', "inimigo", "linha de frente", "luta".“Acredito que a ‘retórica da guerra’ esteja sendo utilizada em função do esforço mobilizado para o enfrentamento à pandemia", diz Caroline.


“Esse é o discurso da intimidação, destacando o perigo do que pode acontecer”, comenta também Vladimir Feijó, professor de Relações Internacionais do IBMEC de Minas Gerais. Para ele, esta evocação do período da Segunda Guerra mexe com a sensação de medo e do isolamento provocado pela pandemia.


 


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Não se pode comparar efeitos da guerra com pandemia, alerta historiadora

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Imperial War Museum – 3.6.1945